Tag Luiz Pacheco
campeonato da cultura - época 2007/2008
E aqui manda o respeitinho que se mude de parágrafo.
Morreu Arthur C. Clarke. E Rauschenberg. E, no cinema, houve razia: do actor mais promissor – Heath Ledger – ao mais aposentado – Charlton Heston, passando, parando e demorando nos realizadores: Anthony Minghella, Bergman e Antonioni e, há coisa de dias, Sidney Pollack.
Morreu também Albert Hofmann, que não era artista, mas tomou parte activa em muita obra de arte quando criou o LSD.
Entre nós, morreram Luiz Pacheco e Eduardo Prado Coelho.
Péssimas notícias, portanto. Mas como, em cultura, muitas vezes só se é grande, lido, apreciado e consumido em larga escala quando se morre, então pode ser que todas estas orações fúnebres tenham feito qualquer coisa pela inteligência das massas.
Na ocidental praia lusitana, o grande acontecimento foi a troca de ministro. Não está em causa se Pinto Ribeiro já fez alguma coisa; está em causa que um relógio parado teria acertado mais que Isabel Pires de Lima. Abriu o Museu Berardo e o do Oriente, o Indy alicerçou-se ainda mais nos hábitos cinéfilos do País e os concertos e festivais de música são cada vez mais e melhores.
O grande capital chegou aos livros, entre Leya e Bertelsmann, o que ainda não é, por enquanto, nem boa nem má notícia.
Mas nem tudo foi negro. O mês passado, por exemplo, Phil Collins anunciou o fim da sua carreira. Não compensa, mas é um princípio.
AB
[Publicado no Meia Hora de 06.06.2008, edição comemorativa do 1º aniversário]
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Torcato Sepúlveda (1951-2008)"Era um grande libertário e um grande l
Torcato Sepúlveda (1951-2008)
"Era um grande libertário e um grande liberal" [cf. Francisco José Viegas, in JN, 22/05/2008]
"Nunca se devia dizer nada, nunca se devia chorar desta maneira. Torcato Sepúlveda, amigo de muitas horas, de muitas conversas, meu companheiro de tanta literatura gasta e por gastar, a voz, a fúria, a zanga, os livros, a memória de muitas páginas, o leitor amável, o leitor furioso, o céptico entusiasta, os bancos de jardim, o Jardim da Parada logo de manhã, os jornais, as estantes, os bares, as varandas sobre a planície. Nunca se devia chorar desta maneira a quem nunca se dirá adeus, adeus, adeus, mesmo que essa palavra exista, mesmo que essa palavra não exista lá, para onde vais." [Francisco José Viegas, Despedidas]
"Pacheco [Luiz] nunca escreveu romances porque a sua literatura era de urgência: a de matar a fome, de zurzir os bonzos que mandavam nas letras, de atacar o salazarismo a golpes de impropérios e gargalhadas” Palavras de Torcato Sepúlveda ... na sequência da morte do escritor Luiz Pacheco, e que poderiam servir-lhe quase de auto-retrato ... [Ana Marques Gastão, DN, 22/05/2008, p. 57]
Torcato Sepúlveda, aliás, João Torcato Macedo Duarte Sepúlveda, nasce em Braga a 27 de Fevereiro de 1951. Filho de professores [cf. Gastão, ibidem], começa as suas leituras (com a imensa paixão que sempre o acompanhou) pela biblioteca de casa. Camilo, Eça, Júlio Dinis, Alexandre Herculano, e muitos mais autores lhe encheram a alma e vida, marcando-lhe o prazer da leitura, o gozo da escrita ou o apuro da conversa. Em Braga, ainda, frequenta a vasta biblioteca do pai do seu amigo Américo Barbosa [cf. entrevista à Rádio Universitária do Minho] e toma conhecimento com as obras de escritores estrangeiros. Colabora, então, num jornal de escola. Depois de findo o liceu vai para Coimbra, cursar Filologia Românica. Os tempos de Coimbra, com as tempestades políticas de então (crise 69), trazem-lhe outras leituras, diferentes realidades, novas combatividades e o mesmo ardor pelos livros. Participa nas lutas académicas, conhece os escritos de surrealistas portugueses (António Maria Lisboa, Cesariny, ...), lê Debord e outros situacionistas [Internacional Situacionista (IS)].
[Coimbra teve um núcleo curioso de pró-situacionistas e publicações ligadas à IS – diga-se que em 1972, foi publicado em Coimbra "Banalidades de Base”, de Raoul Vaneigem e (segundo Torcato) foram publicados no Diário de Coimbra alguns textos, sob pseudónimo. Em 1971, os pró-situacionistas de Coimbra interrompem uma sessão de Julien Gracq, na Alliance Française, com ruidosas palavras de ordem. Na altura participa Carlos Amaral Dias, que pouco depois é preso. Outros pró-situacionistas, como Francisco Alves (tradutor da "Sociedade de Espectáculo" e que em finais de 1964 foge do país) ou Américo Nunes da Silva (antropólogo), são citados no "Leituras", do Jornal Público, 6 de Maio de 1995, p.2]
Parte para o exílio (discordando da guerra colonial) na Bélgica, onde vive entre 1971-1974 trabalhando como operário. Entra em contacto, na época, com os situacionistas belgas e franceses. Nunca se dizendo pró-situacionista, curiosamente, escreve anonimamente [Anónimo do Seculo XX] "Reflexão sobre a estratégia da luta de classes em Portugal", Braga, 1976, e outros textos sob pseudónimo, que marcam a literatura da IS em versão portuguesa. Decerto, Torcato Sepúlveda era quem mais sabia, entre nós, sobre a influência do movimento da IS em Portugal, matéria aliás nunca devidamente recenseada.
Regressa depois de 25 de Abril de 1974, trabalha no serviço de fronteiras em Vila Real de Santa António e a convite de Vicente Jorge Silva entra para o Expresso, colaborando na crítica literária [assinando João Macedo]. É co-fundador do jornal Público, editando o estimado suplemento literário "Leituras", saindo em 1997 para ingressar no Semanário. Colaborou ainda no Independente, na revista Invista, no jornal A Capital e na Grande Reportagem. Trabalhava actualmente na NS (Diário de Notícias). Fez crítica literária e traduções [como a "Historia desenvolta do Surrealismo", Antígona, 2000] e sob pseudónimo como: Silva de Viseu, Buíça, D. Luís da Cunha.
Torcato Sepúlveda, que morreu no dia 21 de Maio de 2008, era "homem de tantas histórias, de muitos amigos, de outros inimigos (...) era um redactor de estilo inconfundível, ora virulento ora comovente, na quase extinta linha de fronteiras entre jornalismo e literatura ..." [Ana Marques Gastão, ibidem]. Uma perda terrível.
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Vinte Linhas 262
«Último minuete de Lisboa» de Fernando Venâncio
Este livro (subtítulo Nove desencontros literários) é dedicado a Fernão de Magalhães Gonçalves (1943-1988) e ao «Manifesto por uma literatura legível». Mas a sua referência é «O aprendiz de feiticeiro» de Carlos de Oliveira. Nesse livro de 1971 o autor de «Uma abelha na chuva» viaja à volta da obra de Afonso Duarte, Abel Botelho, Fernando Pessoa, Raul Brandão, Camilo, Alves Redol, Abelaira, José Gomes Ferreira, Irene Lisboa, Cesário Verde, Caldwell e Tchekov. Polémico, sábio, informado, Carlos de Oliveira afirma: «Começar outra vez a poesia portuguesa como se ela acabasse de nascer? Desculpem a imagem camponesa mas a enxertia faz-se na árvore que já existe.» Fernando Venâncio inventa cavaqueiras: Jorge de Sena e José Saramago, Camilo Castelo Branco e Almeida Faria, Florbela Espanca e Mário de Carvalho, Castilho e David Mourão-Ferreira, Eça de Queirós e José Cardoso Pires. Sobre «Mau tempo no canal» de Vitorino Nemésio escreve que ele «não é um dos grandes romances portugueses do século» embora a sua linguagem seja «enxuta e sem redundâncias.» Depois afirma: «chega, aqui e além, a ser luminosa.» Outros autores relidos são Pinheiro Chagas, Machado de Assis, Abelaira, José Cutileiro, Nuno Bragança, José Saramago, Alexandre Pinheiro Torres. E surge ficção sobre o Barão (Branquinho da Fonseca), o Grande Prémio APE de 92, o magala (Luiz Pacheco), o livro escrito na Ericeira e perdido porque o jump foi roubado e ao autor não fez o print. Espaço de desencontro, a literatura é o lugar onde a maioria dos prosadores e poetas não anda satisfeita mas isso é positivo: «Não há, sinceramente, melhor espectáculo do que a dor dos que sabem contá-la».
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ESCAPADA
Três dias no Algarve, por causa da Bienal de Poesia de Silves. Oportunidade para reencontrar amigos, conhecer gente nova, descobrir vocações. Um tempo magnífico (a imagem foi obtida a partir da varanda do meu quarto, às 10 da manhã de ontem), a hospitalidade generosa de Maria Gabriela Rocha Gouveia e de todo o staff da autarquia, as magníficas instalações da nova Biblioteca Municipal, onde decorreram as sessões, o ambiente descontraído dos almoços e jantares, tudo contribuiu para um fim-de-semana diferente. O manuel a. domingos também andou por lá. Houve de tudo: cantares à desgarrada (nanja eu), egos inflacionados, gossip político (o PS tem um peso-pesado para apresentar em Silves nas próximas autárquicas), poemas ao vivo, provas de vinho, cavaqueio sobre Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu com Denise Ferraz, uma simpática scholar brasileira, um pianista cego com voz de barítono, um episódio boliviano que envolveu Maria Estela Guedes, a força da natureza que é Luís Carlos de Abreu, etc. Também houve uma homenagem a Urbano Tavares Rodrigues, marcada para o fim da tarde de hoje, a que já não pude assistir, com grande pena, mas tinha outro compromisso em Lisboa. Do muito que ouvi, retive com particular agrado a comunicação de Marco Alexandre Rebelo, um jovem mestre em estudos portugueses e teoria da literatura da Universidade Nova de Lisboa, bem como os poemas de Aida Monteiro e manuel a. domingos. Ontem à noite, num serão informal, o romancista Domingos Lobo, cuja poesia não conhecia, surpreendeu toda a gente com a leitura de um (magnífico) poema de homenagem a Luiz Pacheco. Valeu a pena. Está explicado o motivo porque hoje não pus em linha o habitual Ler os Outros.
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O AMANTE JAPONÊS
Já está nas livrarias o novo livro de Armando Silva Carvalho (n. 1938), O Amante Japonês, colectânea de 67 poemas, alguns a partir do Apóstolo João, mas também de Pessanha, Herberto, Novalis, Blake, Wagner, Luiz Pacheco, Carlos de Oliveira e Manuel de Freitas.
Hoje os olhos são míopes
E eu um assassino dentro do teu corpo.
Há palavras de sangue caídas
Ao meu lado.
Mas sorvo mesmo assim essas imagens densas
Enquanto o esforço sobe o nevoeiro
E tu não te arrependes de me levares contigo
Atraiçoado.
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O Crocodilo que Voa
- Se valeu a pena?!... O que é que eu posso dizer a isso?... Foi como foi.
Não sei que resposta o entrevistador esperava; foi como foi. Há quem se atreva a dizer: foi bom, vivi tudo, vou feliz. Há quem arrisque: tenho medo, lamento que tenha medo, perdi a coragem que a vida me foi dando. A empáfia da personalidade que se vai sem arrependimentos apenas se perdoa se aceitarmos o natural orgulho humano; ninguém gosta de admitir que perdeu.
O que perdeu Luiz Pacheco? Nada. Qual o interesse de reunir em livro um conjunto de entrevistas que abarca o último quarto de vida do escritor libertino? Tanto do ponto de vista do leitor cusco como do autor, todo. Luiz Pacheco foi um malabarista da vida. Dançava para um público atento e atencioso, dava-se ares de ser mais do que era, ou menos do que parecia ser. A sua vida oscilou entre a decadência e a glória, mas é certo que teve mais da primeira do que da segunda. Ele tirava gozo de falar, de se expor, de confessar, de provocar, e sobretudo de se arrepender do que disse. No livro em questão, O Crocodilo que Voa, são inúmeras as vezes que lhe perguntam: disse isto antes, é verdade?, como que para confirmar o escândalo, a pouca vergonha; sobre sexo, quase sempre, e a má-língua, que também acaba por ser uma espécie de coito interrompido. Ele responde invariavelmente: eh, pá, isso não, nem pensar, exageram. Mas nunca desmente. O jogo era este, e desde a célebre entrevista dada à Kapa em 1992 até à sua morte, foi assim. A última entrevista, de resto, publicada postumamente no SOL, é uma exemplar lástima. O aproveitamento do entrevistador é penoso, o sofrimento em directo do escritor é lamentável.
Sobretudo, ler de fio a pavio o livro organizado por João Pedro George cansa. Pela repetição das histórias, pela insistência nos temas, pelo constante repisar de provocações, a cabra, a puta a fazer o pino, os magalas, etc.
O que adianta isto então à obra de Luiz Pacheco? Nada. Nada acrescenta ao brilho intermitente da sua prosa, a verve pontual ancorada no real que foi marca do que escreveu. Admito que, enquanto as entrevistas foram sendo publicadas na imprensa - a primeira que li foi feita pela Cláudia Galhós para o Blitz, na célebre sessão fotográfica com o velho vestido de Pai Natal, involuntário palhaço da geração rasca que lia o jornal - celebrava com júbilo não disfarçado cada aparição da figura. Agora, vistas as coisas em letra de forma, impressas e bem encadernadas, resta nada. Apesar do esforço do prefácio, do artesanato impecável do objecto livro, da tentativa (um cínico diria vampirismo, o Pacheco vociferaria chupismo) de divulgar junto de um público alargado a obra do último (e mais iconoclasta) representante de uma época que se finou há muito.
No fundo, ouvíamos (lendo) as patacoadas do Pacheco como se ouve o louco do bairro. Aquela história da sabedoria brotar dos sítios mais improváveis não anda longe disto. A telenovela do intelectual com pretensões anarquistas; deixemos o livro de lado e peguemos no que escreveu. A vida fora da vida. O que interessa.
(O Crocodilo Que Voa - entrevistas a Luiz Pacheco, organizadas por João Pedro George, ed. Tinta da China)
(Texto publicado no Arte de Ler)
[Sérgio Lavos]
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Inferno Português é o lugar mais cool da eternidade…
Com a morte de Luis Pacheco, a parte reservada aos portugueses que irão para o inferno tornou-se no lugar mais cool da eternidade. «Sem dúvida que já com a vinda de Cesarinny as coisas se tinham tornado complicadas de gerir, mas a partir do dia 5 deste mês estão impossíveis!», garantiu o próprio Satanás ao Salgador da Pátria sobre a chegada de Luiz Pacheco ao Inferno. Com este aumento de qualidade no pedaço luso do fogo eterno, começa-se já a sentir uma afluência de portugueses e estrangeiros vindos de outros cantos da eternidade celeste como o Paraíso, o Purgatório e a parte do Limbo, recentemente extinta por Bento XVI e que agora se chama Nova Alcochete. «O fecho do Limbo pelo Ratzinger perturbou-nos a logística de sobremaneira, mas nada foi tão grave como a chegada do Pacheco ao Inferno!» afirmou S. Pedro. «O papa vai ter muito que explicar quando chegar cá acima, uma vez que os portugueses aderiram recentemente ao aborto e com a extinção do Limbo não temos onde por os putos e logicamente não queremos pô-los ao pé do Pacheco!». A parte portuguesa do Inferno está a promover turísticamente a área com caras de gente famosa sobre fundos paisagísticos: Salazar com a refinaria de Sines; Fernando Pessoa com as linhas de alta-tensão da REN e Sá de Miranda no Hospital de Faro. «Está-se a tornar num hot-spot de luxo o cantinho lusitano e fazemos ver aos de lá de baixo! Há quem garanta que já viu o próprio Yaveh a tomar um refresco junto ao Palácio de S. Bento!» assegurou Francisco Sá Carneiro, Primeiro-Ministro do território. Entre habituais frequentadores do lado português do Inferno contam-se celebridades como Oscar Wilde, Frank Zappa, Shakespeare, Thomas Edison, Frank Lloyd Wright, Sarah Bernhardt, Marie Curie e muito, muito mais. «Eu estou sempre a rondar o sítio…» disse-nos o bisavô de Zezé Camarinha.
As coisas como eram antes do Pacheco lá chegar…
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Inferno Português é o lugar mais cool da eternidade…
Com a morte de Luis Pacheco, a parte reservada aos portugueses que irão para o inferno tornou-se no lugar mais cool da eternidade. «Sem dúvida que já com a vinda de Cesarinny as coisas se tinham tornado complicadas de gerir, mas a partir do dia 5 deste mês estão impossíveis!», garantiu o próprio Satanás ao Salgador da Pátria sobre a chegada de Luiz Pacheco ao Inferno. Com este aumento de qualidade no pedaço luso do fogo eterno, começa-se já a sentir uma afluência de portugueses e estrangeiros vindos de outros cantos da eternidade celeste como o Paraíso, o Purgatório e a parte do Limbo, recentemente extinta por Bento XVI e que agora se chama Nova Alcochete. «O fecho do Limbo pelo Ratzinger perturbou-nos a logística de sobremaneira, mas nada foi tão grave como a chegada do Pacheco ao Inferno!» afirmou S. Pedro. «O papa vai ter muito que explicar quando chegar cá acima, uma vez que os portugueses aderiram recentemente ao aborto e com a extinção do Limbo não temos onde por os putos e logicamente não queremos pô-los ao pé do Pacheco!». A parte portuguesa do Inferno está a promover turísticamente a área com caras de gente famosa sobre fundos paisagísticos: Salazar com a refinaria de Sines; Fernando Pessoa com as linhas de alta-tensão da REN e Sá de Miranda no Hospital de Faro. «Está-se a tornar num hot-spot de luxo o cantinho lusitano e fazemos ver aos de lá de baixo! Há quem garanta que já viu o próprio Yaveh a tomar um refresco junto ao Palácio de S. Bento!» assegurou Francisco Sá Carneiro, Primeiro-Ministro do território. Entre habituais frequentadores do lado português do Inferno contam-se celebridades como Oscar Wilde, Frank Zappa, Shakespeare, Thomas Edison, Frank Lloyd Wright, Sarah Bernhardt, Marie Curie e muito, muito mais. «Eu estou sempre a rondar o sítio…» disse-nos o bisavô de Zezé Camarinha.
As coisas como eram antes do Pacheco lá chegar…
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O libertino passeia por Braga, a idolàctrica, o seu esplendor
Saio para a rua e vou à cata dos dois pequenos libertinos ricos. Passeio pelas ruas de Braga, sigo ora uma ora outra, deito olhares de megatoneladas, fumo. O cinema ainda não acabou. Vigio de longe o jogo amoroso duma mocinha a palrar na rua com um maçanito, muito gesticulosa, muito espalha-brasas, e com o corpo todo pendurado para cima dele que com a mão esquerda na algibeira vai entretendo o caralho com as promessas que a vista lhe está a demonstrar.
(...)Faço o meu primeiro engate de magala, na rua. Não me digam tragédias: é facílimo. É a coisa mais natural do mundo!
(...) -`tão, nada feito - diz a sua honra camponesa, e pela primeira vez noto como me apetecia aquele corpo, ser dono ou servo daquele aparato movediço de carne, pele, ossos, pêlos, força. E também me parece que ele está pronto a ir atrás de uma promessa, duma mentira qualquer, e que a recusa pela venda comercial é onde ele esconde sua pronta adesão. Talvez o seu vício. Mas para comercial, comercial e meio.
(...) Descemos um carreiro em bico à direita da estrada. Escuridão. É o lugar ideal para mijar, cagar ou brochar discretamente. Calculo que ele está a provocar-me com o caralho fora das calças, quer festa, mas eu estou muito senhor de mim.
(...) Volto para Braga. Mas o cinema já fechou. E como estou um bocado tonto, passeio um bocado. Onde será o 28? Volto para a pensão. Lá estão os dois rapazolas; ou serão outros, parecidos?Pergunto:
- Que tal esse cinema?
- Não foi mau - responde com ar zangado.
Ora vão pró caralho! Não aturo meninos depois de ter tido homens na mão. Bebo não bebo mais verde? bebo não bebo mais cerveja? ou uma água Castelo? Fumo? Peço mais fiado? Volto a passear e aproveito para meter aqui o episódio da excursão vianense. (...) Vou para a cama. O vinho pesa-me na cabeça. Bebo água fria para desenjoar a gorja. Durmo como um bendito. Acordo no escuro, cedo, 5 ou 6 horas, há um grupo na Pensão que se esta a levantar, batem portas. Estou excitadíssimo. O meu homem virá ao encontro? Onde o hei-de meter? Nestes quartos ouve-se tudo.
Abjecção. Remorsos. Decido não ir. Misturo a Deolinda com o António e sem mexer na picha estou quase a vir-me. De repente, tudo é tão violento que tenho de bater uma punheta.
Luiz Pacheco,Contraponto, 1970.Desenho de Carlos Ferreiro, Luiz Pacheco
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O libertino passeia por Braga, a idolàctrica, o seu esplendor
Saio para a rua e vou à cata dos dois pequenos libertinos ricos. Passeio pelas ruas de Braga, sigo ora uma ora outra, deito olhares de megatoneladas, fumo. O cinema ainda não acabou. Vigio de longe o jogo amoroso duma mocinha a palrar na rua com um maçanito, muito gesticulosa, muito espalha-brasas, e com o corpo todo pendurado para cima dele que com a mão esquerda na algibeira vai entretendo o caralho com as promessas que a vista lhe está a demonstrar.
(...)Faço o meu primeiro engate de magala, na rua. Não me digam tragédias: é facílimo. É a coisa mais natural do mundo!
(...) -`tão, nada feito - diz a sua honra camponesa, e pela primeira vez noto como me apetecia aquele corpo, ser dono ou servo daquele aparato movediço de carne, pele, ossos, pêlos, força. E também me parece que ele está pronto a ir atrás de uma promessa, duma mentira qualquer, e que a recusa pela venda comercial é onde ele esconde sua pronta adesão. Talvez o seu vício. Mas para comercial, comercial e meio.
(...) Descemos um carreiro em bico à direita da estrada. Escuridão. É o lugar ideal para mijar, cagar ou brochar discretamente. Calculo que ele está a provocar-me com o caralho fora das calças, quer festa, mas eu estou muito senhor de mim.
(...) Volto para Braga. Mas o cinema já fechou. E como estou um bocado tonto, passeio um bocado. Onde será o 28? Volto para a pensão. Lá estão os dois rapazolas; ou serão outros, parecidos?Pergunto:
- Que tal esse cinema?
- Não foi mau - responde com ar zangado.
Ora vão pró caralho! Não aturo meninos depois de ter tido homens na mão. Bebo não bebo mais verde? bebo não bebo mais cerveja? ou uma água Castelo? Fumo? Peço mais fiado? Volto a passear e aproveito para meter aqui o episódio da excursão vianense. (...) Vou para a cama. O vinho pesa-me na cabeça. Bebo água fria para desenjoar a gorja. Durmo como um bendito. Acordo no escuro, cedo, 5 ou 6 horas, há um grupo na Pensão que se esta a levantar, batem portas. Estou excitadíssimo. O meu homem virá ao encontro? Onde o hei-de meter? Nestes quartos ouve-se tudo.
Abjecção. Remorsos. Decido não ir. Misturo a Deolinda com o António e sem mexer na picha estou quase a vir-me. De repente, tudo é tão violento que tenho de bater uma punheta.
Luiz Pacheco,Contraponto, 1970.Desenho de Carlos Ferreiro, Luiz Pacheco
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Comunidade
Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para o candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e abraços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.
(...)
Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz cansado de ler parvoíces que só em português é possivel ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.
(...)
Luiz Pacheco,
("Comunidade", Contraponto, 1964)
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Comunidade
Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para o candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e abraços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.
(...)
Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz cansado de ler parvoíces que só em português é possivel ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.
(...)
Luiz Pacheco,
("Comunidade", Contraponto, 1964)
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Editorial
Mas, Maio, é tempo de balanços também.
Realiza-se mais uma edição do Super Bock, Super Rock tirando a propaganda a uma marca de uma empresa do sr. Pires de Lima que respeita pouco os seus trabalhadores valerá certamente a pena por alguns dos concertos.
Maio é o último mês antes do inicio de três meses em que parte dos portugueses irão de férias aos poucos. Parte porque nem todos terão esse direito, para alguns (muitos) as férias servirão para ficarem fechados em casa a multiplicar as amarguras do resto do ano e o dinheiro do subsídio (para os que o têm, já que muitos dos milhares de precários nem a isso têm direito) servirá apenas para reduzir as dívidas.
Maio começou com enormes manifestações do dia do trabalhador e terminará com uma Greve Geral, há quem diga que esta não se justifica... Fica a pergunta o que se faz quando os salários pouco aumentam, os preços aumentam brutalmente, os grupos económicos tem lucros de milhões e milhões o Governo aprova uma lei das praças de Jorna (mais conhecida por trabalho temporário), prepara-se para aprovar o despedimento sem justa causa conhecido pelo pomposo termo de "Flexisegurança"... o que se faz perante isto tudo? certamente que quem diz que não se justifica uma Greve acha que perante isto se devia assobiar. Mas assobiem eles.
Quanto à Taberna, que atingiu este mês as duas mil visitas, comemorou e reivindicou o 1º de Maio e celebra agora o 82º aniversário de Luiz Pacheco. Força!
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Editorial
Mas, Maio, é tempo de balanços também.
Realiza-se mais uma edição do Super Bock, Super Rock tirando a propaganda a uma marca de uma empresa do sr. Pires de Lima que respeita pouco os seus trabalhadores valerá certamente a pena por alguns dos concertos.
Maio é o último mês antes do inicio de três meses em que parte dos portugueses irão de férias aos poucos. Parte porque nem todos terão esse direito, para alguns (muitos) as férias servirão para ficarem fechados em casa a multiplicar as amarguras do resto do ano e o dinheiro do subsídio (para os que o têm, já que muitos dos milhares de precários nem a isso têm direito) servirá apenas para reduzir as dívidas.
Maio começou com enormes manifestações do dia do trabalhador e terminará com uma Greve Geral, há quem diga que esta não se justifica... Fica a pergunta o que se faz quando os salários pouco aumentam, os preços aumentam brutalmente, os grupos económicos tem lucros de milhões e milhões o Governo aprova uma lei das praças de Jorna (mais conhecida por trabalho temporário), prepara-se para aprovar o despedimento sem justa causa conhecido pelo pomposo termo de "Flexisegurança"... o que se faz perante isto tudo? certamente que quem diz que não se justifica uma Greve acha que perante isto se devia assobiar. Mas assobiem eles.
Quanto à Taberna, que atingiu este mês as duas mil visitas, comemorou e reivindicou o 1º de Maio e celebra agora o 82º aniversário de Luiz Pacheco. Força!
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Parabéns Pacheco!
Luís José Gomes Machado Guerreiro Pacheco, nasceu a 7 de Maio de 1925 em Lisboa. Escritor, editor, polemista, etc., certamente que foi tudo aquilo que queria ser, disse tudo o que tinha para dizer. E ainda diz, felizmente. A Taberna dá os parabéns a Luiz Pacheco com um pequeno filme que assinala o início de uma semana que lhe será dedicada. Parabéns Pacheco!
Fontes:
Entrevista de Miriam Assor / Correio Domingo 2007-04-08
Entrevista de Pedro Dias de Almeida / VISÃO nº 652 1 Set. 2005
Filme de António José de Almeida / Luiz Pacheco, Mais um Dia de Noite
Música de Astor Piazzola / Adios Nonino, do albúm com o mesmo nome
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Parabéns Pacheco!
Luís José Gomes Machado Guerreiro Pacheco, nasceu a 7 de Maio de 1925 em Lisboa. Escritor, editor, polemista, etc., certamente que foi tudo aquilo que queria ser, disse tudo o que tinha para dizer. E ainda diz, felizmente. A Taberna dá os parabéns a Luiz Pacheco com um pequeno filme que assinala o início de uma semana que lhe será dedicada. Parabéns Pacheco!
Fontes:
Entrevista de Miriam Assor / Correio Domingo 2007-04-08
Entrevista de Pedro Dias de Almeida / VISÃO nº 652 1 Set. 2005
Filme de António José de Almeida / Luiz Pacheco, Mais um Dia de Noite
Música de Astor Piazzola / Adios Nonino, do albúm com o mesmo nome
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